Com um sorriso largo, de orelha a orelha, Paulo Alvarenga, apesar de se considerar tímido, não é de economizar palavras quando o assunto é música, principalmente se tratando de música eletrônica. Com apenas 19 anos, o jovem já está realizando um sonho de garoto, ser Dj. Nascido na cidade de Novo Horizonte, interior de São Paulo, Alva – como gosta de ser chamado, se mudou para o Guarujá com apenas 10 anos, junto ao seu irmão mais velho e pais, que vieram para trabalhar como caseiros em um condomínio bastante conhecido na região. Hoje, Paulo e sua família vivem em uma casa bem aconchegante, em um bairro onde a estrada ainda é de terra, porém, pertinho da sua praia favorita, a Pernambuco, onde volta e meia também surfa com seus amigos.

Apesar de ser recente nesse mercado, Alva já pôde viver na pele a dificuldade que esse tipo de profissional enfrenta. A busca por uma chance e pelo reconhecimento estão cada vez mais difíceis. Porém, mesmo com essas adversidades, o Dj não se deixa levar, e persiste em seu sonho.

“Lembro que quando cheguei aqui, o dia estava muito nublado, tudo estranho, e eu não tinha visto nenhuma praia até então. Eu cheguei no Guarujá e não vi nenhuma praia. Então falei: “nossa que lugar estranho”, ‘tá ligado?’. Ficava só dentro do condomínio durante uma semana, até minha mãe conseguir a matrícula na escola”.

Como foram seus primeiros dias na escola nova?

Quando eu fui pra escola, eu achei muito estranho. Porque assim, lá no interior, as escolas são muito boas, isso é fama do interior já, se você pega uma escola pública do interior é tipo uma particular daqui do litoral, serio mesmo!

E no interior eu estudei em particular e pública. Quando cheguei aqui, era uma escola totalmente estranha, toda cheia de areia, era feia. Lógico, uma escola não tem que ser bonita, mas era feia, entendeu? (Risos). Fugia do que eu era acostumado.

Demorou para você se adaptar lá?

Até me acostumar, levou mais ou menos 1 ano, 1 ano e pouquinho. Porque assim, eu cheguei na metade do semestre, já peguei uma turma em andamento, então é estranho você pegar ‘um bonde andando já’. Demorei pra fazer alguns amigos. Até chorei nos primeiros dias.

Mas, por quê? Teve rejeição?

Não, rejeição não. Era porque eu não queria tá lá. Eu chorava pra ir embora. (Silêncio)

Você sentia/sente saudade do interior então?

Exatamente! Porque lá no interior eu jogava bola, fazia natação, muitas coisas. Então tipo, na época, aqui, eu não fazia nada. Eu não sabia surfar, não jogava bola, o que eu sentia muita falta. Enfim, por isso queria ir embora, eu chorava na sala de aula, não todo dia, mas já chorei umas 3 ou 4 vezes. Eu não queria sair de casa.

E como você conseguiu se sobressair dessa situação?

Com a ajuda dos meus pais e meu irmão mais velho. Demorou um tempo, comecei a fazer amigos e tudo mais, e essa saudade do interior foi passando. Meu pai me colocou em uma escolinha de futebol que tem aqui no Guarujá, a “Bom de bola”. Acabei lesionando meus dois joelhos e por recomendação médica, tive que parar por 1 ano. Foi nessa hora que eu conheci o surf.

Como foi seu envolvimento com o surf?

Como eu fiz natação, eu já nadava bem. Pra você ter uma ideia, na hora que eu estava saindo do interior, antes de me mudar para cá, eu estava me preparando pra uma competição de natação, tinha 10 anos, e ia competir com uma garotada da minha idade. Meu irmão, era um peixe! Eu competia com ele, claro, eu não ganhava, mas eu ficava sempre pertinho e nadava muito bem! Aí eu conheci o surf, me apaixonei!

Qual modalidade do surf você praticava?

Eu comecei a surfar de Bodyboarding – modalidade praticada na superfície do mar para deslizar pela curva da onda em direção a areia; desde o começo, e foi a que eu mais gostei dentre as outras que eu já pratiquei, como o Longboard. O Bodyboarding é o mais complexo de todos, por mais que você ache que seja fácil. Então eu comecei a evoluir.

Pra você ter uma ideia, eu tive amigos que estudaram comigo na mesma escola que eu demorei a me adaptar, e eu não sabia que eles surfavam, encontrei eles na água. Foram eles que começaram a me ensinar a surfar. Eu nunca competi, sempre levei como amadorismo. Mas já me chamaram para participar do campeonato paulista de bodyboarding. Porém, nunca achei que fosse bom surfando, e por isso recusei.

E de onde surgiu essa vontade de ser Dj?

Tudo isso que eu falei, desde quando eu cheguei no Guarujá, até quando eu morei no interior, a música sempre esteve presente na minha vida.

Eu sou uma pessoa, que tipo assim, eu não consigo não escutar música. Se eu estou em algum lugar, eu tenho que escutar alguma música, nem que seja de fundo, de qualquer coisa. Mas em especifico, eu sempre tive uma afeição maior pela música eletrônica. E isso é desde ‘molequinho’, e não é algo assim que eu vim gostar por modismo, nem por que eu acho os festivais legais e tal. Eu sempre escutava música eletrônica, sempre!

O que te inspirou?

Desde a primeira vez que escutei a música Infinity do Guru Josh (2008), é aquela música antiga bem famosa, sabe? Então, eu escutei essa música e falei: Nossa velho, que f*!, Na época eu usei outra palavra né, porque eu era pequeno e nem sabia o que significava (risos). Mas enfim, lembro o quanto aquilo era bom, não parava de escutar.

Logo, procurei ampliar meus conhecimentos. Daí o que acontece, fui procurar conhecer os caras dessa área. O Dj top na época era o David Guetta, logo depois eu descobri o Avicii, que hoje em dia é falecido, eu adorava as músicas deles. Em 2012 eu conheci o trabalho do Hardwell. Se eu não me engano, ele foi o melhor Dj do mundo no ano de 2014 e 2015. Ele conseguiu pegar o que o David Guetta e o Avicii faziam e misturar tudo, ficou algo incrível! Depois disso eu me declarei realmente apaixonado pela música eletrônica. Em 2014 eu vi uma live do Ultra Music Festival em Miami – festival de música eletrônica. Na hora pensei o quanto eu preciso um dia tocar num lugar desse.

Se você me perguntar o que eu escuto, eu te mostro minha playlist, tem de tudo, mas 98% é música eletrônica.

E quais foram seus primeiros passos pra se tornar o Alva, Dj?

Então, meu irmão tinha um iPad 3 na época. Eu peguei e comecei a procurar algum aplicativo que me ajudasse na composição de mix de músicas. Encontrei o ‘Edjing Mix’ que me ajudou muito a aperfeiçoar minha técnica e mixar as músicas que eu mais escutava. Eu apanhei demais. Mas, foi na minha própria casa, que eu comecei a ter a noção de como é uma mixagem, a transição, os efeitos sonoros e pegar o tempo certo da música, tudo isso em um aplicativo.

O tempo foi passando, e o meu desejo de ter uma controladora só ia aumentando, só que eu não trabalha e não tinha dinheiro. Não queria pedir para os meus pais, é um equipamento muito caro.

E como você conseguiu comprar uma?

Há 1 ano e meio atrás, eu comecei a trabalhar como vendedor na loja Still do Shopping Jequitimar do Guarujá, estou lá até hoje. Quando consegui juntar uma boa grana, eu primeiro tirei minha habilitação e logo me preparei para comprar a minha controladora.

Peguei o cartão do meu cunhado, que tem um limite legal, e comprei uma controladora. Absurda de cara. Meu irmão me chamou de louco, eles me apoiaram, mas depois eles ficaram falando: ‘caramba, não era pra você ter feito isso’. Mas eu sinto que era pra eu realmente ter feito isso. Porque se eu não tivesse comprado, o meu sonho ainda estaria parado.

Por mais que eu não tenha festa todo dia para fazer, nem tenha contratos todos os finais de semana, as vezes aparece algum ‘gato pingado’. Então, querendo ou não, já está me dando um lucro pequeno, nem que seja pra pagar o próprio equipamento. Pra você ter uma noção, eu comecei a tocar em 2014 improvisadamente, e a minha controladora eu vim comprar no final de 2018, e até hoje estou pagando por ela.

E os seus pais, o que pensam a respeito disso? Eles te apoiam?

Meus pais me apoiam, até o momento que esse sonho não me atrapalhe.

Meu pai já me levou nos lugares que eu toco, como no bar Vegas onde foi a minha primeira apresentação como Dj. Minha mãe sempre conversou comigo, lembro até hoje quando ela disse: ‘Filho se é esse o seu sonho, e ver que você realmente gosta e tá afim de fazer isso, compra e faz!’. Por esse apoio final deles, eu peguei e falei: ‘é agora que eu vou comprar!’, ai eu comprei e dei início ao meu sonho.

Como foi sua primeira experiência como Dj? Demorou surgir algum trabalho?

Assim que eu comprei, no mês seguinte, janeiro no caso, já apareceu um trabalho pra fazer, tocar na inauguração do bar Vegas. Eu fiquei super feliz.

A primeira vez que eu toquei lá não foi exatamente pra um público. Eu fui na verdade, ser avaliado pelos responsáveis do local. Na época, eu não dominava o que eu domino hoje, ainda não domino totalmente o equipamento porque tenho pouco tempo de uso, mas na época era menos ainda. Apesar disso, os responsáveis gostaram. Daí, fechamos um contrato, pra que na próxima vez que eu tocasse lá, eu já recebesse algum valor em dinheiro.

Já consegui tocar pra cerca de 150 a 200 pessoas lá. É um local pequeno, então pode-se dizer que é um público grande. Porém, já toquei pra públicos maiores.

Neste mesmo bar?

Não. Foi no último evento que eu fiz. Na igreja Matriz aqui do Guarujá, que foi um evento chamado “Bosconight”, cerca de 300 pessoas confirmadas. Eu precisei chamar um amigo Dj pra me ajudar com alguns equipamentos e suporte.

Você se lembra da sensação que teve ao tocar para um grande público?

Nesse evento maior que eu fiz da Igreja, foi o primeiro que eu fui que tinha um palco. No Vegas, não tem palco, eu toco no mesmo nível das pessoas, então acabei sumindo no meio da galera, ninguém vê ninguém. Na igreja, por mais que seja totalmente fora do meu estilo, eu estava lá em cima, no palco. Quando entrei, eu era o centro. Eu fiquei receoso de errar, mas depois que eu peguei o ritmo das pessoas, nossa, foi a melhor sensação. Todo mundo ali embaixo olhando pra você e curtindo a mesma coisa ali no momento.

Você precisou mudar seu repertório por conta de se tratar de uma Igreja?

Sim, mas isso acontece em qualquer lugar. Muitas vezes, nessas contratações, você não vai ser de fato um artista, não vai poder tocar o que você quer. E sim, o que as pessoas que te contrataram querem. Elas dão até uma lista do que deve ou não tocar. Claro, tem lugares, como na Igreja, que são compreensíveis.

Alguns estilos de músicas eu não sei tocar ou não sou tão bom. Por exemplo, o funk. Mas precisei aprender, porque aqui no Guarujá ou em Santos é só isso que toca. Não é um crítica, mas infelizmente é só isso que toca.

E você pensa em tocar em algum outro lugar?

Sim, além do Ultra Music Festival, tenho um grande sonho de tocar em casa de show, balada, sabe?

Quando você é chamado pra tocar em uma balada, você consegue seguir seu próprio repertorio. Tocar o que você gosta e o que sabe tocar. Porém, hoje em dia a atração principal é o funk. E isso dificulta muito a entrada em baladas, justamente pelo tipo de música que eu toco, a eletrônica. Ter contato é muito importante nessas horas. Perdi as contas de quantos e-mails, direct e mensagens já mandei. Todas foram visualizadas, mas nenhuma respondidas.

O que você acha que acontece?

É muito Dj! Querendo ou não, é uma coisa que eu gosto, mas esse fator é muito chato. Se você for em cada esquina, acha um. E isso é de uma hora pra outra. O equipamento sempre foi muito caro, e por isso tem muitos que se dizem Dj, que tocam qualquer coisa. Eles vão aceitar um preço menor do que o seu, só pra acabar pegando o serviço. Não digo que eu cobro um absurdo, mas desse modo, o cara não está valorizando o próprio trabalho.

Eu sei o preço do meu equipamento, o preço que eu vou ter com o combustível até lá, entre outras coisas. Mas muitas pessoas não olham por esse lado, pensam apenas que colocamos uma música pra tocar e pronto.

Já passou por algum situação desse tipo?

Teve uma situação. Me chamaram pra tocar em uma festa de aniversário, e eu cobrei R$ 400; com som, iluminação, fumaça entre outros inclusos no pacote. Ela achou caro e me perguntou se poderia ser R$ 300. Mas eu não ia abaixar o meu preço. 

Provavelmente ela deve ter achado algum Dj, ou algum cara que fez por esse valor. Não estou criticando que o evento vai ser ruim, mas isso desvalorizou o meu trabalho. Ou seja, as pessoas dão valor ao bem material e não dão valor ao trabalho das outras pessoas.

Isso já te desmotivou a continuar seu sonho?

Apesar dessa negação, eu não pensei em desistir. Eu penso assim, do mesmo jeito que tem alguém pra não pagar terá alguém pra pagar e valorizar meu trabalho. Pode demorar, mas vai aparecer alguém.

Não é uma parada por questão dinheiro, eu não cobro pelo fato de eu estar tocando, eu cobro pelos equipamentos, é diferente. Tocar pra mim é um prazer.

Como você se apresenta hoje?

Eu me apresento como Alva. Não coloco Dj Alva, apenas Alva. Eu sou muito ligado as tendências de fora, lá não tem essa de “Dj tal”, é apena o nome e pronto. Alva, é um nome fácil de pronunciar, pega na cabeça.

Você falou sobre a vontade de seguir o seu repertório. Você procura ajusta-lo ao tipo de público pro qual você está tocando?

Sim. Quando você é um Dj, na minha opinião, você não tem quer ir já com um repertório pronto, e sim um gênero. Daí você adequa ele ao local e as pessoas que estão no evento.

Quando eu toco, eu me sinto no melhor lugar onde eu poderia estar. Eu posso estar tocando no quintal da minha casa pros meus amigos, quando eu vejo a galera gostando do que eu estou fazendo, todos dançando, felizes, isso é muito legal! É algo que faz com que todo mundo esteja na mesma sintonia que você sabe? Tá todo mundo curtindo a música que você está tocando agora, mas ansiosa pra saber a próxima e você também entra no embalo.

Muitas pessoas associam esse universo da música com o uso de drogas. O que você acha a respeito?

Realmente, acontece muito disso. Muita gente acha que esse meio da música eletrônica envolve só droga. Mas não é verdade. E também não é porque eu sou Dj que eu tenho que usar droga. Eu sou um cara muito tranquilo, nunca usei nenhum tipo de droga nunca mesmo.

Quais são seus próximos planos?

Eu quero continuar tocando, fazendo o que eu mais gosto. Quero poder ajudar meus pais, com os frutos do meu sonho, assim como eles sempre me ajudaram. E quem sabe um dia ter meu trabalho reconhecido lá fora. Acredito no meu potencial, isso já me torna diferente.