A exposição acontece entre os meses de maio e julho, no Sesc em Santos, com horários flexíveis de terça-feira a domingo

A expressão artística por meio de veículos de comunicação de massa não é recente. Desde o período da ditadura militar no Brasil, ocorrida no ano de 1964 a 1985, já se tinham registros desse tipo de inserção. Os artistas da época, para manter suas vidas a salvo e não serem perseguidos ou censurados, apresentavam suas obras anonimamente ou de forma clandestina, dentro de veículos de comunicação a serem colocados em circulação.

Reunindo diversos assuntos acerca desse tipo de tema, a exposição Arte-Veículo, desenvolvida pela curadoria e jornalista Ana Maria Maia, em parceria com o Sesc de Santos, traz uma visão referente as mudanças e percepções dos veículos de comunicação e como as expressões artísticas se apropriaram desses meios para também se comunicar e passar sua visão ao público.

Antes de se tornar exposição, o Arte-Veículo era tema de uma pesquisa realizada para um trabalho acadêmico da própria Ana Maria. Logo, sua dedicação lhe rendeu um livro que mais tarde tornou-se tema para a exposição. “O Arte-Veículo se iniciou pesquisa. Hoje, já é uma plataforma. A Ana Maria consegue estar presente de várias formas e tem uma facilidade enorme de acessar os mais variados tipos de público. Tem até canal no Youtube” justifica o arte-educador, Fabiano Hilário.

A exposição conta com dois marcos históricos utilizados pela curadoria como forma de disseminar a proposta que deseja passar. Começando pela chegada da televisão ao Brasil, na década de 50, que traz uma grande diferença na forma pela qual eram feitas as comunicações na época. Logo em seguida, a disseminação da internet que trouxe outra grande modificação na história.

A partir disso, a jornalista dividiu a exposição em 6 núcleos, sendo: Duvidar da verdade, Perde-se, Duelar, Hackear, “Ouviver” e “Ficcionalizar”. Assim como Fabiano, o Sesc conta com outros arte-educadores, que colaboram com o auxílio do visitante no conhecimento de cada um dos núcleos encontrados na Área de Convivência e até mesmo na biblioteca.

Falando um pouco de cada núcleo, o primeiro, “Duvidar da Verdade”, aborda temas como a fake News e traz para a nossa reflexão a importância de não acreditar sempre no que está sendo apresentado, devemos cultivar dúvidas. Este núcleo apresenta obras como a de Nuno Ramos, que através da narrativa do Jornal Nacional ocorrido durante o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, em 2016, faz uma releitura em uma espécie de montagem utilizando as sílabas e respirações dos âncoras e cria um novo discurso, a letra Ligia, uma canção de Tom Jobim.

No “Perder-se”, assim como citado no começo da matéria, é possível ver obras desenvolvidas clandestinamente ou de forma anônima, muitas realizadas na época da ditatura militar. Os artistas, de certo modo, “perderam suas identidades” para continuar a fazer o que mais gostavam, a arte.

O “Duelar” traz a forma com que artistas não convencionais entram em duelo com o comum. Utilizam de performances para confrontar o tradicional, colocando em questão para que lado cada um deve ir. “São artistas estilo Lady Gaga. Enquanto estão todos vestidos de longo, aparece ela com um vestido todo feito de carne” explica Fabiano.

Quando tratamos do núcleo “Hackear”, grande parte do público já sabe o que esperar. Afinal, essa palavra está constantemente ligada aos veículos de comunicação. Neste núcleo é possível ver a infiltração de artistas dentro dos meios de comunicação.

Tratar da comunicação que é próxima, é um dos temas abordados no núcleo “Ouviver”. Na junção das palavras ouvir, ver e viver a jornalista traz a importância da aproximação por meio da comunicação entre você e uma outra pessoa e não apenas direcionado à um veículo.

Finalizando os 6 núcleos, o “Ficcionalizar”, vem com a ideia de dizer que a ficção não é uma mentira e sim uma verdade. Porém, para aqueles que fizeram ela. Encontramos obras que falam sobre novelas que marcaram época e também personagens até hoje lembrados.

Nestes mesmos núcleos é possível observar a presença de uma outra obra, o Teatro de Sanidades. Inclusive, dificilmente você passará por lá e não escutar a interpretação desses artistas. “Há obras que não estão dentro do núcleo, mas elas conversam com o núcleo. A Ana fez um convite para esses artistas colocarem na prática um dos propósitos desses núcleos, por exemplo o Hackear. Então eles vieram e Hackearam a própria exposição” ressalta o arte-educador.

No Sesc em Santos, essa encenação pôde ser somente vista pelas telas de televisões espalhadas pelos núcleos. Porém, no Sesc Pompeia em São Paulo, os visitantes presenciaram a performance ao vivo desses artistas, que abordaram temas como a religião, o racismo e a respeito dos travestis.

Ter a experiência de conhecer e poder compreender cada núcleo é algo bastante engrandecedor. Todos nós estamos em constante mudanças, principalmente os meios de comunicação. Por isso, acrescentar esse tipo de conteúdo, em um momento, onde a vez é sim da comunicação, o torna capaz de identificar e por que não trazer novos significados.