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por Willian Ribeiro

“Estudava de manhã em alguns momentos e em um outro eu fazia curso técnico durante um tempo. Sobrava a noite para estudar. Porque eu venho de uma família que não era abastada sabe? Eu tive que construir patrimônio.” Essa foi a rotina de Rafael Pedrosa durante muito tempo no início de seus estudos. Ele me recebeu em sua sala numa manhã de sábado, por volta de 10 horas. Eu estava atrasado para a entrevista por conta de um atraso no transporte. Ironia do destino. Era sobre este assunto que eu estava indo elaborar com ele. Por outro lado, Rafael não pôde me esperar pois já havia pessoas aguardando na sua sala para algum compromisso com ele. Disse que faria a reunião e me solicitou aguardar e, prontamente, depois do término, me chamou a sua sala. A sala em questão possuía um aspecto acolhedor e ficava ao fundo do sexto andar da Universidade Santa Cecilia, localizada no Boqueirão, em Santos.

Ao adentrar a sala, percebi no semblante do Rafael um aspecto ameno e calmo. No decorrer da entrevista, pude constatar uma leve ansiedade pelo gesticular de mãos e as suas pernas balançando. No entanto, apresenta uma segurança na fala. Isso porque já está acostumado a dar entrevistas, principalmente para veículos de comunicação da região. E tem propriedade para tal. Não era para menos. No alto dos seus 32 anos, Rafael tem um gabarito invejável. Professor universitário e consultor de transporte, mobilidade urbana e logística, áreas correlatas, segundo ele. Fez faculdade de graduação de administração de empresas, logística e transporte multimodal, gestão portuária e comércio exterior. Como pós-graduação, fez gestão de logística e transporte, docência do ensino superior, planejamento e desenvolvimento de cidades e sustentabilidade de sistemas costeiros. Ainda, possui mestrado em sustentabilidade em sistemas costeiros e no momento, faz doutorado em gestão e planejamento urbano e territorial, onde está em fase de conclusão. Uma trajetória formidável.

Na entrevista, ele fala sobre a sua carreira e percalços, os problemas ocasionados pelo excesso de veículos nas cidades da baixada santista e, ainda, sugere soluções para tais problemas.

Como você se viu nessa área? Qual foi o “start” para a profissão que você segue?

Tudo se deu através da universidade, tanto no caminho como aluno quanto depois, já como professor.

Sempre estudou aqui na Unisanta (Universidade Santa Cecília)?

Não. Todas as graduações que eu fiz eu queria conhecer as culturas dessas instituições. Porque eu acho que isso agrega muito para o aluno tanto no que você vai fazer que é repetir quanto no que você não quer levar para si. Então, eu estudei na São Judas, antiga Unimonte, Unip, Unisantos, enfim, estudei e depois eu fui para a USP.

A sua formação básica foi em escola pública ou particular?

A inicial, toda em escola pública.

E foi fácil continuar os estudos mesmo estudando em escola pública ou houve algumas dificuldades?

De fato. Isso criou em mim (o fato de estudar em escolas públicas), uma disciplina desde sempre. A escola pública não é um elo formador de deficiência somente. Tem muita oportunidade. Ela tem suas falhas? ela forma com deficiências? Sim! Mas, muitos casos, em instituições particulares, isso também ocorre. Acho que o fator chave é o aluno tentar minimizar os problemas e otimizar aquilo de recursos que ele tem disponível. Foi o que eu tentei fazer durante toda a minha vida acadêmica inicial e como estudante das escolas públicas. Então, eu conheci as deficiências, tentava sanar elas por vários caminhos buscando fora da instituição o que ela não podia me dar, pesquisando, indo a bibliotecas e outras coisas. Hoje em dia, com a internet, fica ainda mais fácil. E o fato de não se contentar apenas com o que é colocado em sala de aula. Na escola pública você “pega” um funcionário de carreira, muitas vezes desmotivado, e vai dar o “básico do básico” e se você se contentar só com aquilo, comprometerá a sua formação. Não é a escola que perde, é você.

Além das aulas, você procurava se profissionalizar?

Sempre. Toda aula eu buscava um complemento daquilo que foi dito. Porque a escola dá um caminho, ela não te dá a jornada, te indica uma direção. Então, eu sempre “peguei” essa chamada direção e complementei com aquilo que eu via em sala de aula.

E houve uma disciplina diária de estudo nesse tempo?

Certamente. Todos os dias depois da aula, pelo menos duas “horinhas”, eu me dedicava a isso. Ou a pesquisar, ler alguma coisa, praticar, no caso de exercícios que eram propostos. Mas eu sempre tive essa rotina. Estudava de manhã em alguns momentos e em outro momento eu fazia curso técnico durante um tempo e sobrava a noite para estudar. Mas entendendo na educação uma oportunidade de mudança de vida. Porque eu venho de uma família que não era abastada, sabe? Eu tive que construir patrimônio, inclusive, minha família. Isso aconteceu porque eu estava na sala de aula.

Há quantos anos leciona aqui na Universidade Santa Cecília?

Nas instituições de forma geral, não especificamente só aqui, eu tenho quase 11 anos de docência. Comecei com o SENAI, ensino profissionalizante, dali virou técnico e migrou para o ensino superior. Minha história começou quando eu tinha feito minha primeira graduação, por oportunidade de um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) que eu fiz e acabou trazendo muito destaque, sendo patrocinado por algumas empresas aqui da região. Isso fez o SENAI me ver com bons olhos. Nesse momento apareceu a docência na minha vida e ali começou o processo, além daquilo que eu estava alçando, de me qualificar para mais. Após surgiu mestrado, doutorado e outras coisas que eu fui fazendo para poder ampliar e me preparar melhor para esses desafios que surgiram.

O tema mobilidade urbana é um assunto que você se identifica?

Eu trabalhei numa multinacional e eu coordenava distribuição de toda a região sul e sudeste do Brasil durante cinco anos. Naquele período eu encontrava muitos desafios. Nós tínhamos uma responsabilidade muito grande. Entregávamos, por exemplo, oxigênio em hospital. Então, é um produto que não pode faltar. A pretexto, inclusive, de eu ser responsabilizado criminalmente na época caso isso ocorresse. A partir daí, eu me aprofundei muito nos estudos das dificuldades de locomoção em pontos específicos e a tentar criar alternativas para isso. Tudo isso virou estudo, sobretudo aqui na região. Tem um livro que eu abordo e foi desenvolvido junto com meus alunos de uma outra instituição onde nós abordávamos o sistema de transporte da Baixada Santista, os gargalos e as alternativas de mobilidade urbana que ele traz. E ali nós desenvolvemos um estudo bem amplo. Com a publicação desse estudo, se deu um “boom” ainda maior porque eu acabei me tornando uma referência para a mídia da região quando esse assunto vem a tona, desde acidente de trânsito, questão de mobilidade projeto de expansão e sistema de transporte público. Ali eles acabam me procurando e demandando alguma coisa disso.

Agora entrarei mais afundo no tema mobilidade urbana. Quanto tempo você demora para se deslocar em um transporte diariamente? É tranquila sua locomoção diária?

Eu uso veículo próprio. Depende dos horários. Porque a locomoção diária aqui tem ficado cada vez mais comprometida. Então, a população não se deu conta ainda, de uma forma geral, que nós temos que reprogramar os tempos de deslocamento. A cidade está com o trânsito cada vez mais concorrido. A frota de veículos cresceu muito. Aquele trajeto que fazíamos historicamente em dez minutos já se tornou 20 e nós ainda não nos atentamos. E as pessoas têm chegado cada vez mais atrasadas por esse problema. E você sai e fala: “- Vou com o meu carro!” Mas não é mais garantia que você vai fazer em menor tempo. Nós temos um acréscimo de condutores habilitados e temos um acréscimo acima da média nacional da frota da cidade. Santos hoje é o pilar econômico da região. Além da frota da cidade crescer, nós recebemos aqui diariamente um fluxo de veículos muito grande de pessoas que tem algum interesse aqui. Ou estudo, ou econômico, ou profissional. Enfim, que vem até a cidade. E isso torna o trânsito aqui cada vez mais concorrido. Isso nos faz projetar para daqui um pouco mais de uma década, nesse ritmo, ter um rodízio na cidade. Isso tudo acaba prejudicando. O deslocamento hoje não pode ser mensurado; o que é certo é que você tem que antecipar o tempo que tinha antes e é sempre uma perda de qualidade de vida.

Nesse caso, nós teríamos que adiantar nosso tempo?

Pela imprevisibilidade. Um momento crucial, esse que nós vivemos agora, é o fato da cidade estar com obras nos seus pontos de escoamento. Por exemplo, Ponta da Praia, onde nós temos as balsas. Temos uma obra de grande porte ocorrendo. Então, se aquela for uma “válvula de escape” e for ser utilizada, você já tem um problema ali. A entrada da cidade de Santos, principal via arterial e que leva e tira as pessoas da cidade, está passando por um processo de reforma muito grande. Isso tem implicado numa lentidão muito grande no trânsito desse local. Nós temos hoje, além da questão de todo esse fluxo avançado, aumento de frota, etc…. Os pontos de entrada e saída da cidade recebendo obras ao mesmo tempo. Nesse sentido, talvez não tenha havido planejamento. Por conta disso a cidade está esse caos. O trânsito está comprometido porque todo mundo chega mas, na hora de sair, tem um “funil”. O trânsito começa irradiar para dentro da cidade. Então, você verifica a Avenida Ana Costa, onde sempre teve uma fluidez notória, com trânsito e uma lentidão que antigamente não existia. Você sabia que o trânsito na cidade era no começo da manhã e final da tarde. Hoje não mais. É em qualquer horário. Sábado, inclusive, você tem trânsito.

E as chuvas e as enchentes ajudam a piorar mais o problema da locomoção?

Com certeza. Nós temos o gargalo que é regional. Também é muito pontual aqui na cidade e também precisa de investimento. Aparentemente sobre a entrada de Santos, a parte do município está sendo feita. Mas é uma tripartite, então, vai necessitar de investimento do estado ou da união para que todo o processo seja concluído. Essas inundações trazem prejuízos diversos porque elas deixam os veículos ilhados e trazem o caos para a cidade. De novo. Onde a gente tem esse problema? No local que além de ter obra, alaga. Essa composição faz com que quem está em Santos não saia e quem quer entrar não consiga. Isso trava a cidade. E aquilo que Santos tem notadamente e continua recebendo prêmios por isso, começa a ficar em risco que é a questão de ser uma cidade de qualidade de vida. E o trânsito pode nos tirar esses prêmios todos.

Sobre as ciclovias, você acredita que elas ajudaram a amenizar os problemas de trânsito nas cidades?

Elas ajudam mas precisam ser mais fomentadas dentro das cidades. Além de ampliadas, mas com padrão. O grande desafio e problema que se tem hoje é que as ciclovias em Santos não tem padrão. Verifica uma ciclovia que corre, por exemplo, em paralelo com o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), ela tem um padrão. Mas se você vai em alguns canais de santos ou na ciclovia na avenida da praia elas tem outro padrão. Além dessa questão, ela não te traz uma questão de manutenção igual. A ciclovia da praia está sempre com a manutenção em dia, a ciclovia que corre em paralelo com o VLT e nos canais nem sempre. É muito comum encontrar aquela calçada com desnível. Como é que eu vou fomentar uma política de locomoção urbana de bicicletas se as vias não estão de fato padronizadas e adequadas? Porque isso requer uma educação de trânsito diferente. A forma como eu me porto no trânsito enquanto pedestre ou de veículo automotor ou ciclista, usuário de patinetes elétricos, tudo vai mudar. Aquilo que eu tenho que me atentar muda. Prova disso é o número decrescente de acidentes que nós tivemos com a implantação do VLT na região. Um objeto estranho no meio do trânsito. Então, requer uma educação de trânsito para que aquilo possa corroborar com a cidade e fluir naturalmente. Mas não foi feito.

Os transportes coletivos, na sua opinião, são suficientes para suprir as necessidades da população?

Eles são mal dimensionados na realidade. Nós percebemos que nos horários de pico, faltam ônibus ou então passam dois da mesma linha ao mesmo tempo. Não há planejamento com a roteirização e o acompanhamento constante. Tentou-se colocar aqui em Santos o planejamento que é onde um indivíduo identificaria em quanto tempo chegava a linha que ele aguarda. Nós não conseguimos fazer isso. E é algo simples. Era colocar um chip de celular dentro de um ônibus. Cidades e países muito menores e menos desenvolvidos que o nosso consegue fazer isso e nós não. Porque isso é ruim para quem controla esse fluxo, gera uma cobrança por parte do usuário, que é quem o poder público muitas vezes quer “deixar cego”. A partir do momento que nós fornecemos informações e algo se concretiza, ele pode reclamar, procurar o PROCON (Programa de Proteção e Defesa do Consumidor), pode fazer “mil coisas” que, de repente, não sejam interessantes.

Nesse sentido, não é interessante informar a população a procurar os seus direitos?

Essa informação gera compromisso e ele gera uma cobrança. Então, é um caminho que por vezes eles preferem não seguir. Não apenas aqui. Em qualquer lugar do nosso país, infelizmente. As pessoas ficam mal informadas por essa razão.

Para encerrar, você acredita que o poder público precisa ter um projeto mais amplo, que demore um pouco mais, mas que seja mais efetivo do que algo que seja em um prazo curto mas não tenha tanto efeito?

Atualmente, não tem um plano de mobilidade urbana regional. As cidades estão totalmente interligadas, sobretudo quando pensamos em Praia Grande, São Vicente, Cubatão e Santos. Vamos colocar Guarujá, mas a cidade tem o gargalo da balsa. Hoje, há um projeto em desenvolvimento para isso ser resolvido, mas essas quatro cidades estão totalmente interligadas. Acaba uma e começa a outra. Elas precisam de um plano de mobiliado integrado. Os municípios muitas vezes, até por questões políticas, tomam decisões unilaterais e não pensam na questão de continuidade entre um e outro. Vou te dar um exemplo: A prefeitura de São Vicente foi fazer uma obra na entrada da cidade com a ponte da cidade também em obras. E ela fez isso em meio a um feriadão com um reparo no asfalto da areia da praia. Essa era a única via livre que se tinha para sair de Santos. O que aconteceu? A cidade virou um caos. Portanto, existe essa falta de conversa entre os municípios. Poxa, eu estou em uma área que é minha, meu município e é rota de ligação com o município vizinho. Será que não era necessário haver um alinhamento para que o impacto seja amenizado para todos? Existe uma acomodação muito grande, as cidades estão muito “coladas”. Não cabe mais a tomada de decisão unilateral. Vou resolver o meu lado e quem quiser me acompanhe. Não dá! Hoje precisa haver uma conversa coletiva. Sobretudo em uma região metropolitana, com cidades muito desiguais dentro dessa mesma região, mas que precisa conversar. Porque cada uma tem algo a oferecer para essa região. Por isso, precisa haver uma política comum para que toda a circulação aqui seja comum. Durante o estudo do livro, que nós publicamos em 2016, encontramos realidades totalmente diversas que estão dentro da mesma região e que não deveria ocorrer. Descobrimos em algumas cidades as pessoas transportadas por “tratorezinhos” de arenar com banco atrás e pagando por isso. Encontramos essa realidade em Itanhaém. É muito preocupante. Porque nós moramos numa região metropolitana no papel mas não na tomada de decisão. E na adoção de medidas que possam melhorar a qualidade de vida, muitas vezes, através da mobilidade urbana e do transporte público.

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