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CENTRO - CUBATÃO - SP - 01/12/2020: As lojas estão seguindo as diretrizes impostas sobre o uso da máscara.
Foto: Edson Pereira/AES

Por Diogo Carvalho (texto) e Edson Pereira (fotografia), da AES

A região da Baixada Santista, no litoral paulista, tem grande parcela da sua população que conta com o comércio e o turismo para trabalhar e viver. Entre os nove municípios da região, Itanhaém tem cerca de 100 mil habitantes que, em sua maioria, dependem do turismo para lucrar: trabalham no comércio, em lanchonetes, bares, barracas de praia.

As dificuldades durante a pandemia e neste momento de retomada dos negócios trouxeram muitas perdas para comércios tradicionais da cidade, muitos não conseguiram se recuperar. Esse é o cenário que se estendeu por toda a região, evidentemente que a pandemia do Coronavírus é um dos principais causadores dessa situação, porém, locadores, concorrências, prefeituras e a população também possuem parcela de culpa. 

As prefeituras da região se dedicaram muito à fiscalização dos comerciantes, aplicando diversas multas e até mesmo fechando alguns pontos tradicionais das cidades, além do aumento significativo do aluguel dos espaços, forçando a falência de alguns locais.

Os comerciantes que conseguiram sobreviver fechados voltaram a trabalhar respeitando todos os devidos procedimentos, porém, ainda com medo e altamente ligados a qualquer notícia de novas medidas. Os comércios não tiveram grande aceitação, e foi difícil comunicar aos clientes, que normalmente são outros comerciantes ou funcionários das empresas ao redor, que não poderiam entrar, teriam que usar álcool em gel a todo instante e que todo o atendimento seria feito somente ali no balcão da frente. Alguns bares e restaurantes entraram em aplicativos de delivery ou até mesmo venderam pela própria rede social.

Com o índice de mortes e infecções do Coronavírus diminuindo, foi liberado que os clientes entrassem nos bares e restaurantes, com isso, a população local e os turistas, que continuaram vindo para a região, ficaram mais à vontade, levando os comerciantes a respirarem e não se afogarem no mar de contas. O Centro de Inteligência e Economia do Turismo, da Secretaria do Turismo do Estado de São Paulo, projetou os impactos da pandemia:

“Em 2019 foram cerca de 8 milhões de viajantes nacionais e internacionais que escolheram a Baixada Santista como destino. Neste ano de 2020 a Baixada deve fechar com cerca de 5 milhões. Já no Estado, a quantidade cai de 46 milhões para 29 milhões de turistas nacionais e internacionais.”

Quando a situação do comércio do Centro de Itanhaém começou a se estabilizar, gerando até mesmo um pouco de lucro para alguns comerciantes, os espaços que até então estavam sem nenhum locatário, logo, sem nenhum outro bar, loja, restaurante, lanchonete ou qualquer outro tipo de comércio ali, voltou a alugar, porém, espaços que antes eram tradicionais comércios locais, se tornaram espaço de duas, três ou até mesmo quatro novas lojas.

Muitas dessas lojas são somente para retirada, o que geraria ainda mais revolta nos comerciantes tradicionais que lutam com todas as forças para manter suas lojas completas, esperando o retorno da normalidade, sem que alterasse seu serviço. A situação ainda iria se agravar ao saber que alguns dos novos comerciantes, não seria nem mesmo um cidadão local, ou que aquele comércio não seria seu principal negócio. Essa foi uma situação percebida na maioria das cidades da região, que receberam diversos turistas que vieram para ficar.

A concorrência que antes existia de forma saudável, com comerciantes locais, que se conheciam desde a infância, com preços similares e o grande diferencial estando no estilo de refeição e/ou produto, agora se tornara de desconhecidos, que paravam com seus grandes carros nas proximidades, chegavam com mercadorias e deixavam seus empregados trabalhando, sem contar o preço impossível de se disputar. A proprietária e cozinheira do Bar e Lancheteria Maverick’s, Andreá Marques, relata:

“Tenho meu comércio há mais de dez anos nesse local, meus pratos variam de R$10 a R$14, assim como a grande maioria do comércio do bairro, meus clientes que trabalham mais perto preferem por conhecer a qualidade do nosso produto. Alguns comércios desses que surgiram na pandemia estão colocando preços de R$7 com direito a sobremesa. É impossível eu chegar nesse preço com produtos de qualidade aceitável, e todos do bairro estão reclamando.”

O Brasil, por ser um país “abençoado por Deus”, que nunca atravessou muitas dificuldades desse nível do Coronavírus, não possuía um plano de contingência, mesmo já tendo passado em 1918 pela terrível gripe espanhola. Os municípios mais turísticos sofreram com as alterações em leis, números de vendas e aumento dos preços dos insumos em detrimento com a carga tributária. No momento com a retomada do fluxo no comércio em todas as cidades da Baixada Santista, para os comerciantes sobreviventes, resta contar com os clientes fiéis, os que já reclamam da qualidade dos novos locais e se reinventarem.

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