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Belgas falam sobre herança maldita após ato terrorista que matou 35 em aeroporto

Por Ellen Reginato

Um dos atentados terroristas mais turbulentos que a Bélgica teve de lidar, ocorreu em 22 de março de 2016, no aeroporto de Bruxelas, capital do país. Resultou em aproximadamente 35 mortes, incluindo os três bombistas-suicidas islâmicos, e mais de 300 pessoas feridas. Após todo o ocorrido, a Bélgica, que é um país popularmente conhecido por aceitar em grande parte a entrada de estrangeiros, acabou ficando mais criteriosa com a imigração.

Em virtude do atentado, a vida dos descendentes que residem na Bélgica e imigrantes, principalmente negros de origem marroquina ou turca, não tem sido tão fácil quanto parece. Alguns dizem que somente pela cor da pele são vistos com outros olhos e denominados como “não naturais belgas”, como o caso da ex-miss belga com ascendência filipina, Angelina Flor Pua, vítima de comentários racistas e xenófobos na internet. Já outros se sentem inseguros quando vão às compras ou por simplesmente saírem às ruas, com receio de que possam ser confundidos com algum terrorista.

No entanto, Ruben Laureyssens, de 24 anos, belga e branco, afirma que uma parte da população começou a agir dessa forma porque não sabe a verdadeira intenção dos imigrantes e seus descendentes, se realmente eles querem começar uma nova vida na Bélgica e construir seus sonhos, ou se estão com más intenções. Quando questionado sobre o título “não natural belga”, ele responde: “Essa é uma questão difícil de responder, desde muitos anos sempre foi dito que um natural belga seria como eu, branco, olhos azuis e cabelo claro. Então, quando alguém nasce na Bélgica, mas seus pais são de outro lugar, é comum que nós já saibamos que essa pessoa possui alguma ascendência estrangeira. É um padrão que foi imposto no passado e acabou ficando. Eu particularmente não costumo dizer isso, porque para mim não importa a cor, ou de onde a família dela veio, se nasceu e cresceu na Bélgica, é um belga”.

Para Ruben, o ataque terrorista no aeroporto de Bruxelas foi o principal motivo de os belgas ficarem com receio de continuar receptivos com os imigrantes. “Não se trata da cor da pessoa, mas o fato de ela ser imigrante acaba deixando a todos aqui com medo de um possível novo ataque. Isso porque nós somos um país de fácil acesso, então, imagine recepcionar cerca de 400 pessoas, que aparentemente parecem ser do bem, mas na verdade dez delas podem ser terroristas, isso acaba trazendo uma perspectiva negativa para nós”, complementa.

Entretanto, Salah Charef, 28 anos, nascido na Bélgica mas descendente de argelinos, entende que os belgas não gostam quando alguém possui um comportamento que não condiz com o tradicional, e afirma que se você quer ser bem aceito, precisa tomar atitudes como as de “pessoas brancas”. Ele comenta sobre o caso da ex-miss, alegando que na Bélgica não há muita aceitação de indivíduos de outras etnias, e que isso resume a causa dos problemas. Sobre suas raízes na Argélia, ele relata: “As pessoas têm bastante dificuldade em me fazer perguntas sobre minhas origens porque ficam com medo de soarem estranhas ou racistas. Eu gostaria que as coisas fossem mais fáceis. O mundo seria melhor se todos pudessem falar abertamente sobre tudo”, conclui.

Apesar das dificuldades impostas aos imigrantes desde 2016, Ruben e Salah ainda concordam que a Bélgica é um país que oferece grandes oportunidades para pessoas de dentro e fora, mas que precisa superar os traumas causados pelo atentado terrorista, a fim de que as novas gerações possam começar a desconstruir os padrões impostos pelo medo.

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