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Por Rafaela Ribeiro

Há quase cem anos, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Oswald de Andrade, Mário de Andrade, entre outros artistas, se reuniam no Theatro Municipal de São Paulo, para um evento que se tornou referência quando se fala em renovação artística no Brasil.

A Semana de Arte Moderna de 22 ocorreu entre os dias 11 e 18 de fevereiro de 1922, e buscava romper com os ideais dos movimentos vigentes na época, como o parnasianismo na literatura, que tinha como mantra “a arte pela arte”, valorizava a estética e utilizava a linguagem culta como norma, enquanto nas artes plásticas havia o academicismo, que buscava retratar a realidade tal como se apresentava e deixava pouco espaço para a subjetividade em suas obras.

Os artistas da Semana de 22, ou “futuristas” como eram conhecidos na época, tinham como objetivo trazer o modernismo para o Brasil, buscando influências das vanguardas europeias, como cubismo, expressionismo e dadaísmo, entretanto eles não visavam copiar os movimentos europeus, mas sim incorporá-los em suas obras, trazendo aspectos da cultura brasileira.

A Semana de Arte Moderna recebeu uma grande cobertura da imprensa na época, sendo um assunto que dividia opiniões, despertando elogios ou duras críticas de diversos jornais, era difícil encontrar um meio termo quando o assunto era a arte dos “futuristas”.

O jornal A Gazeta não poupou críticas ao evento em uma coluna publicada na época intitulada Notas de arte”: “O futurismo é, entre nós, a fantasia mais grotesca possível em arte, é extravagancia elevada a impertinentes exageros e tem provocado a mais sincera reprovação.”

É impossível, falar sobre a Semana sem mencionar as colunas intituladas “Crônica Social”, do poeta Paulo Menotti Del Picchia, para o jornal Correio Paulista e, que eram assinadas com o pseudônimo Hélios, Del Picchia utilizava seu espaço no jornal para defender, de forma bem humorada, a arte futurista de seus críticos.

Um século se passou desde que a semana de 22 chocava a alta sociedade brasileira, hoje, os artistas que fizeram parte do movimento futurista são lembrados como grandes artistas, que se encontravam muito à frente de seu tempo.

Entretanto, a arte continua sendo motivo de debates acalorados, com tentativas de censura, como ocorreu com a exposição “queermuseum”, patrocinada pelo banco Santander, no ano não muito longínquo de 2013, que foi interrompida devido a uma onda de ataques de cunho político e religioso, promovida nas redes sociais, a exposição possuía temática LGBTQ+ e abordava assuntos como identidade de gênero e sexualidade.

Durante a Bienal do Livro de 2019, ocorreu um acontecimento semelhante, em que o então prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella, mandou que fossem recolhidos os exemplares do quadrinho “Vingadores: a cruzada das crianças”, com a justificativa de que o quadrinho continha um conteúdo impróprio para o público infantil, o quadrinho era protagonizado por um casal homossexual, os personagens Wiccano e Hulkling, uma versão adolescente do famoso personagem “o incrível Hulk”. Na época, a imagem de uma das páginas do quadrinho, que continha uma cena de beijo entre os dois personagens, rodou as redes sociais, seguida dos famosos “textões” contendo inúmeras denúncias inflamadas, que exigiam a proibição da venda dos quadrinhos no evento.

Ainda esse ano, ocorreu um caso semelhante, envolvendo o personagem John Kent, protagonista do quadrinho “Son of Kal-el”, e também filho do personagem de quadrinhos mais popular do último século, o Super-Homem, no quadrinho o personagem se assumia como bissexual e protagonizava uma cena de beijo com o personagem Jay Nakamura, novamente a cena do quadrinho causou polêmica e despertou diversas críticas do público conservador.

Outro episódio desse ano foi o cancelamento da exposição “Suaves brutalidades”, do artista Henrique Montagne Figueira, vencedora de um edital do Banco da Amazônia, a exposição de temática LGBTQ+ estava prestes a ser montada, mas foi cancelada, o banco justificou o cancelamento da exposição, alegando que o cancelamento se deu graças às medidas de restrição impostas pela pandemia de covid-19, apesar disso outros trabalhos continuam confirmados na amostra.

Em decorrência destes eventos, é impossível não se perguntar se um evento como a Semana de Arte Moderna de 22 seria alvo de tantas críticas nos dias de hoje como foi à sua época, ou se um dia os artistas censurados atualmente receberão o mesmo reconhecimento que Anita Malfatti e Tarsila do Amaral daqui a cem anos.

Por hora, podemos dizer que a arte continua cumprindo seu papel de tocar nas feridas abertas em nossa sociedade, e levantar questões importantes acerca do mundo em que estamos vivendo.

Textos - Reportagens Shift
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