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Falta de oportunidade no mercado de trabalho e dificuldade na adaptação são motivos 

 

Por Nicole Zadorestki

 

No antigo Egito, além dos deuses, os faraós também eram homenageados com rituais. Com o tempo, o ato se transformou  em espetáculos. E a encenação, nas artes cênicas. Mas foi na Grécia que o teatro se popularizou através das grandes celebrações para o deus do vinho, Dionísio. No apogeu histórico, Atenas promoveu maior concentração cultural, reunindo pensadores e artistas da época. Da Idade Média para a Contemporânea, as artes performativas se adaptaram às mudanças. No entanto, somente em  2020  a mais brusca aconteceu com a pandemia de covid-19. 

“O teatro é a arte da presença. E como trabalhar a presença por uma tela de computador?”, questiona Dário Félix, professor universitário pós-graduado em Direção Teatral e mestre em Artes da Cena. Após 11 anos de carreira, o profissional parou de ministrar aulas para adolescentes de 12 a 14 anos, em uma escola de Santos. 

“Com a pandemia, meu trabalho ficou muito difícil. Eu sofri demais porque tive que adaptar minhas aulas pensando no melhor para as alunas. Elas também sofreram. Quem faz teatro é muito do contato, do corpo a corpo, do olho no olho. Imagina fazer isso tudo pela internet? Todas as turmas aderiram ao formato remoto, até porque não tinha outro jeito”, lembra com pesar. 


Além das performances, foi necessário trabalhar com o setor audiovisual na produção das aulas. “Eu fiz dois trabalhos em vídeo. É muito difícil porque esse formato tende a ter uma relação mais individualizada com cada atriz. No teatro, não. Nele, compartilhamos o mesmo espaço e ao mesmo tempo. Por mais que muita gente ache que a internet facilite tudo, ela até dificulta. O maior desafio de fazer um trabalho em vídeo é que ele não é só teatral, a linguagem audiovisual também está presente e precisa ser pensada.”

 Em contrapartida, há quem veja na internet e nas redes sociais uma oportunidade de recomeço. Com as medidas mais restritivas, foi necessário pensar numa alternativa para conseguir renda. “Comecei a trabalhar em um comércio da família. Como artista, busco explorar o que tenho à minha volta para usar em minhas criações. Atuar com atendimento ao público é um prato cheio. O uso dos recursos que aprendi na minha formação faze toda a diferença na construção de conteúdo”, explica José Fernandes Imaculada, ator há 10 anos. 

Em seu perfil no Instagram, José atua como ‘o tio da vendinha’. Nas publicações, narra e cria personagens inspirados em seus clientes. “Eu tenho tido um retorno bem legal do público, às vezes recebemos apoio de pessoas que nem conhecemos. O impulso de apagar o post quando não tem engajamento é algo que ainda trabalho. Entendo que estou produzindo conteúdo em plataformas que visam o lucro. Os vídeos não viralizarem não invalida o meu trabalho. Minha profissão é artista, mas como viver de arte no nosso país é difícil, hoje tomei para mim o título de “tio” e comecei a pensar como poderia utilizar isso para produzir”, confessa. 

 

Retorno das atividades presenciais 

Com o fim das restrições e o retorno dos espetáculos em todo o país, o ator voltou a ensaiar para a 51ª Encenação da Paixão de Cristo em Cubatão. A estreia está prevista para o dia 28 de novembro, com transmissão pelas redes sociais. 

“Estou ensaiando com todos os protocolos de segurança. Máscara, álcool e distanciamento. É uma emoção muito grande poder voltar e rever o elenco que não tinha contato presencial desde março de 2020. Ensaiar olho no olho, no mesmo espaço físico, é algo único! A felicidade não cabe no peito”, conclui. 

Textos - Reportagens Shift
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