A vida após os 18 para quem tem autismo

Por Luan Guerato

Tatiana Lopes, psicóloga e sócia-fundadora do Grupo GADI | Foto: AES

Nesta terça-feira (9), durante a Semana de Psicologia, a psicóloga Tatiana Lopes, sócia-fundadora do Grupo GADI (Grupo de Avaliação Diagnóstica e Intervenção), abriu o evento para falar sobre TEA (Transtorno do Espectro Autista) na adolescência e na vida adulta.

Ela explicou que a primeira definição de autismo foi feita em 1943, por Leo Kanner: “um isolamento externo desde o início da vida e um desejo obsessivo pela preservação da mesmice”. Com o tempo, e com mais especialistas iniciando suas pesquisas sobre o assunto, foi feita uma nova classificação. O que eram vários transtornos separados (Autismo, Síndrome de Asperger, Transtorno de Desenvolvimento Infantil, Síndrome de Rett, etc.) evoluíram para um mesmo espectro, o Transtorno do Espectro Autista, que pode ser de nível um (leve), nível dois (moderado) ou nível três (grave).

A pessoa com TEA tem comprometida a comunicação social (interação social + comunicação), e pode apresentar comportamentos repetitivos e restritos. Além disso, elas também precisam de suporte para ter independência (habilidade de realizar coisas do dia a dia sem ajuda) e autonomia (capacidade de escolher e de tomar decisões). Atualmente, ocorre um caso de autismo a cada 31 nascimentos, o que reflete em 3,2% de cada nascido. Em 2024, essa contagem era de 1 a cada 36 (2,8%).

O paciente no espectro autista tende a ter interesses restritos, fixos e intensos. Quando entra em um estado de tensão, ele pode ter estereotipias (movimentos motores repetitivos com função de regulação emocional) ou ecolalias (movimentos repetitivos da fala, sem função comunicativa). Além disso, ele pode sofrer alterações no processamento sensorial, o que altera a forma como eles percebem os sentidos (visão, tato, paladar, audição, olfato, sistema proprioceptivo – informa o corpo sobre a posição e o movimento dos músculos e articulações – e sistema vestibular – detecta a gravidade e os movimentos da cabeça para manter o equilíbrio e a estabilidade corporal). Com isso, eles podem (e geralmente – 90% das vezes) desenvolver alguma dificuldade de processamento sensorial, podendo ter hipersensibilidade ou hiposensibilidade.

Tatiana também falou sobre o TEA na adolescência, e explicou sobre possíveis alterações sensoriais e de comportamento que o adolescente pode ter. Em relação às mudanças sensoriais, pode ter alguma seletividade, seja de alimentos, texturas, cheiros, etc, pode tocar as pessoas com força (ou com pouca força), pode não tolerar tecidos ou etiquetas, pode não gostar de lavar os cabelos ou cortar as unhas, pode ter sensibilidade a luz e a sons, pode ter dificuldade de coordenação motora, pode tender a andar na ponta dos pés e pode ter dificuldades para realizar sozinho as atividades de vida diária.

Em relação ao comportamento, ele tende a ter dificuldade nas relações sociais e interpessoais (tendo poucos amigos e tendo baixo contato regular e presencial), geralmente não praticam atividades físicas, buscam momentos de isolamento (praticamente sem se dedicar a atividades externas de lazer), com possível hiperfoco (interesse intenso e restrito) em jogos e eletrônicos e se sentem deslocados em qualquer ambiente.

Sobre o TEA na vida adulta, Tatiana apresentou dados: no mundo, 1% dos adultos estão no espectro. No Brasil, 2,6% das crianças estão no TEA, enquanto 0,9% dos adultos estão no TEA (desses 0,9%, estão englobados 1,5% dos homens brasileiros e 0,9% das mulheres brasileiras). Alguns motivos do diagnóstico tardio são a dificuldade de acesso ao diagnóstico (algumas clínicas só oferecem para pessoas até 12 anos), o masking (prática que ocorre muito ainda na adolescência, que consiste em tentar mascarar o transtorno, treinando em casa como agir “segundo o padrão” em público) e o fato de que alguns adultos com TEA só descobrem quando levam os filhos para fazer tratamento (o fator genético é um grande potencializador do TEA).

Tatiana enfatizou que o transtorno age de formas diferentes em cada pessoa: nenhuma pessoa com TEA é igual a outra, então as características também não são iguais. Pode ser que uma pessoa com TEA tenha todas as características descritas e consideradas como “padrão” para o transtorno, mas também pode ser que ela tenha apenas algumas, e isso não deixa essa pessoa isenta de sofrimento e de necessidade de suporte.

A Semana de Psicologia se estende até sexta-feira, dia 12. Os próximos temas de palestras serão “Neuropsicologia na aprendizagem”, palestra ministrada pelo mestre Elton Freitas nesta quarta-feira (10), “Psicologia Criminal: um olhar sobre o indivíduo”, palestra ministrada pela professora Joana Faconti nesta quinta-feira (11) e “O papel transformador do psicólogo”, palestra ministrada nesta sexta-feira (12) pelo professor Paulo Eduardo Figueiredo. Além disso, serão feitos diversos workshops, tendo como temas “Comunicação não violenta”, “Psicologia e Psiquiatria – conexões possíveis” e “Psicologia, vínculos e separação parental: Impactos emocionais na infância”.