Autismo na adolescência e vida adulta é tema de palestra na ESAMC Santos

Por Giovanna Santana

Tatiana Lopes, especialista em Análise do Comportamento Aplicada | Foto: AES

Nesta terça-feira, 9, a ESAMC Santos recebeu a psicóloga comportamental Tatiana Lopes para abrir a 2ª Semana de Psicologia, para palestra sobre “Autismo na adolescência e na vida adulta: desafios e possibilidades”.

O encontro trouxe à tona questões importantes sobre estratégias para o ambiente de trabalho, políticas públicas de acolhimento e os diferentes graus do transtorno, que foi reconhecido em 1943, a partir do estudo do psiquiatra austríaco Leo Kanner. 

“Autismo não é uma doença, pois a doença tem começo, meio e fim, enquanto o transtorno é contínuo e dura a vida toda. Diferentemente da síndrome de Down, que apresenta características físicas, o TEA envolve questões mentais”, diz a psicóloga. Ela destaca que o TEA apresenta déficit significativo em duas habilidades, manifestadas desde a infância: a comunicação social, que engloba tanto a habilidade comunicativa quanto a interação social; e comportamental, com padrões estereotipados, repetitivos ou ritualísticos.

Para seu diagnóstico, é necessária uma avaliação complexa realizada por profissionais especializados. O autismo é considerado o mais complexo dos transtornos de desenvolvimento ou de saúde mental, devido aos diferentes níveis de comprometimento e suporte necessário.

Tatiana explicou que o TEA é dividido em três níveis: leve, moderado e intenso. Ela ressaltou que, mesmo pessoas com nível um sofrem e precisam de algum suporte no dia a dia. O diagnóstico é feito por uma equipe clínica especializada e pode levar tempo; a palestrante alerta que os diagnósticos realizados na primeira consulta devem ser vistos com cautela.

“O organismo das pessoas com TEA costuma ser super estimulado e necessita de um sistema de regulação. O estado de desregulação pode ser comparado à sensação de ser assaltado ou perder um ente querido. Bagunçar a organização deles causa um sofrimento físico”, afirmou Tatiana.

Movimentos motores repetitivos, comuns na maioria dos casos, servem para regular essa hiperestimulação. Todo o processo de intervenção terapêutica visa a melhoria da qualidade de vida. A palestrante também destacou que o atendimento a pessoas com TEA é, muitas vezes, encerrado erroneamente aos 12 anos, ignorando que o desenvolvimento continua. Questões sensoriais presentes na infância aparecem muito na adolescência, dificultando a realização de atividades diárias. No aspecto comportamental, os adolescentes com TEA enfrentam dificuldade de pertencimento a qualquer ambiente.

O suicídio entre pessoas neurodivergentes, especialmente com TEA, tem aumentado, geralmente ligado à depressão desencadeada pela quebra de rotina e dificuldades de socialização. Na adolescência, o hiperfoco em eletrônicos é comum, pois esses dispositivos liberam muita dopamina e não exige que eles tenham interação social. Segundo dados do Censo do IBGE de 2022, relatados na palestra, 60% dos homens com TEA têm o transtorno, sendo 1,5% por fator genético. Entre as mulheres, o percentual é de 40%, mas elas são menos diagnosticadas porque elas conseguem fazer masking, um comportamento de ensaio para saber se portar socialmente, treinando expressões faciais e comportamentos aceitos pela sociedade.

Na fase adulta, as pessoas com TEA dificilmente expressam o que sentem e têm dificuldade para entender ironias e metáforas. Crises no TEA são reações involuntárias a sobrecarga sensorial ou emocional, geralmente incontroláveis e frequentes, que deixam eles exaustos.

O ambiente de trabalho ainda é pouco acessível, menos de 2% da população adulta com autismo está inserida no mercado de trabalho. A inclusão, segundo a palestrante, deve focar na adequação do ambiente ao indivíduo, e não o contrário.