Especialistas desmitificam o Bullying escolar em palestra: da violência pontual ao trauma profundo

Por João Victor Silva

Débora Guimarães, Regina Jacob e Mariana Campos | Foto: AES

Encontro realizado na quarta-feira, dia 10, na ESAMC Santos, reuniu algumas das principais vozes da área da psicologia e pedagogia para um debate urgente e necessário: o bullying no ambiente escolar e seus desdobramentos. Com um público composto por educadores, pais, acadêmicos e profissionais da saúde, a palestra, aberta pela coordenadora do curso de Psicologia, Maria Cristina Colacco, aprofundou-se nas nuances que diferenciam conflitos pontuais de um bullying sistemático, traçando um paralelo crucial entre a percepção comum e a realidade complexa desse fenômeno.

Maria Cristina destacou a importância da academia sair de seus limites teóricos e enfrentar problemas sociais concretos: “Não podemos tratar o bullying como um rito de passagem ou uma mera brincadeira de criança. É uma violência que silencia, fere e deixa marcas que podem durar uma vida inteira”.

O que é bullying? Rompendo equívocos

Mariana Campos, neuropsicopedagoga e psicopedagoga clínica e institucional, foi enfática ao elencar os três pilares que caracterizam a prática do bullying:

  • Intencionalidade (o desejo consciente de machucar ou intimidar)
  • Repetição (os ataques não são eventuais, mas frequentes)
  • Autoritarismo de poder (a vítima se encontra em posição de inferioridade, seja física, social ou psicológica, para se defender).

“Um desentendimento ou uma briga ocasional entre pares com poder similar não é bullying. O que estamos tratando aqui é uma relação de opressão sustentada, uma tortura psicológica silenciosa que ocorre sob o olhar, muitas vezes, omisso ou negligente dos adultos”, explicou Mariana. Ela utilizou sua expertise em neuropsicopedagogia para ilustrar como essas agressões constantes impactam o cérebro em desenvolvimento, podendo gerar desde queda no rendimento escolar e dificuldades de concentração até sintomas de ansiedade e depressão.

Segundo Mariana, o bullying não é um problema restrito à vítima e ao agressor, mas um sintoma de que um todo está o ambiente escolar como doente, necessitando de intervenções institucionais que promovam a cultura da empatia e do respeito às diferenças.

As cicatrizes na saúde mental e o papel da clínica

O lado mais sombrio e profundo do bullying – suas consequências a longo prazo na saúde mental – foi abordado pela psicóloga Débora Guimarães, formada pela UFSC e com mestrado em saúde pela Faculdade de Medicina da USP, apresentou dados alarmantes que vinculam a experiência de vitimização na escola a transtornos de ansiedade, fobia social e até ideações suicidas na vida adulta.

“O cérebro registra aquela dor do isolamento e da humilhação. A pessoa pode carregar uma autoimagem devastada, uma dificuldade crônica de confiar nos outros e de estabelecer relações saudáveis. É um trauma que precisa ser tratado com a seriedade que merece”, alertou a psicóloga.

O evento serviu como um poderoso alerta e um guia para ação. Ficou evidente que entender o bullying em sua complexidade é o primeiro passo para erradicá-lo. Mais do que um problema escolar, é um problema de saúde pública, e seu enfrentamento requer um olhar apurado, uma escuta sensível e a união de toda a comunidade.