A IA reacende debate sobre o futuro do jornalismo

O uso da ferramenta nas redações segundo a opinião dos profissionais Grupo A Tribuna, Santos-SP

A inteligência artificial (IA) faz parte da rotina de milhões de pessoas e, à medida que evolui, reestrutura práticas tradicionais, entre elas o jornalismo. Nas redações, o tema desperta entusiasmo e apreensão. Profissionais do Grupo A Tribuna discutem como a tecnologia tem impactado o trabalho diário, os processos de apuração e o futuro da profissão.

O maior receio envolve o centro da atividade jornalística: a apuração. Para muitos, trata-se de uma etapa em que a IA ainda não consegue substituir o olhar humano. Daniel Gois, repórter da Tribuna Online, afirma que recorre à tecnologia em cerca de 20% a 30% do trabalho diário, especialmente para traduções, correção de formatações e produção de imagens ilustrativas. Mesmo com o avanço das ferramentas, ele defende que o repórter permanece indispensável. “A apuração vem antes da IA. Ela só acessa o que já está publicado. O contato com autoridades, especialistas e fontes oficiais continua sendo exclusivamente humano”, diz.

Infográfico I – Grupo A

Essa mesma preocupação aparece na avaliação de Rafael Motta, editor de Cidades. Ele alerta para o risco de acomodação ao usar a IA como atalho. Segundo ele, o uso acrítico da tecnologia pode levar profissionais a deixar de entrevistar, investigar e consultar documentos essenciais. “Tem gente que digita uma pergunta, recebe a resposta e escreve a matéria. Isso é perigoso, porque a IA ainda troca endereços, mistura acontecimentos e pode virar desinformação”, afirma. Para Motta, o diferencial do jornalista está no senso crítico. “É a capacidade de analisar o contexto e mostrar o que está acontecendo com precisão e com humanidade.”

Apesar das ressalvas, há consenso de que a IA se tornou uma ferramenta de produtividade. Stevens Standke, supervisor do Portal A Tribuna e integrante do Comitê de IA do Grupo, considera o momento como uma revolução. Ele destaca o potencial das ferramentas em processos de análise de dados e na automatização de tarefas repetitivas. “Já existem casos, lá fora, de grandes matérias nascendo da análise de bancos públicos feita pela inteligência artificial. Ela identifica padrões que levariam horas para um profissional perceber”, explica. Para ele, a adoção responsável passa pela transparência: “As redações precisam criar protocolos claros e torná-los públicos. O leitor tem o direito de saber quando a IA foi usada.”

Infográfico II – Grupo A

O impacto no emprego também surge como ponto sensível. Motta admite que a automação já reduz parte do trabalho humano em situações específicas, como na cobertura de eleições. “Há empresas que programam sistemas para puxar dados da Justiça Eleitoral e montar textos automaticamente. É mais rápido e mais barato, e isso interfere na quantidade de vagas.” Góis e Standke, no entanto, acreditam que o efeito real ainda depende das escolhas das empresas e das habilidades dos profissionais. Ambos defendem que a IA deve atuar como apoio, sem substituir funções essenciais.

Entre riscos e oportunidades, todos concordam em um aspecto fundamental: a tecnologia amplia possibilidades, mas não substitui o fator humano. É o jornalista quem orienta a ferramenta, revisa imprecisões e garante que a informação chegue ao público com rigor, contexto e credibilidade. Como resume Standke, “o olhar do jornalista continua sendo essencial”. E, enquanto o futuro ainda é incerto, uma certeza permanece: nenhuma máquina, por mais avançada que seja, consegue reproduzir a sensibilidade humana necessária para contar histórias reais.