O uso da ferramenta nas redações segundo a opinião dos profissionais do Jornal da Orla, Santos-SP
Em outubro de 2024, a Thomson Reuters Foundation apresentou uma pesquisa com mais de 200 jornalistas, de mais de 70 países do Sul Global, examinando a adoção de IA em apurações, redações e distribuição de notícias. Constatou-se que 80% dos profissionais utilizam ferramentas de IA em seus trabalhos, e apesar da preocupação com o impacto, 52,4% afirmam a habilitação do recurso em auxiliar em uma série de funções.
No Brasil, em análise do mesmo ano idealizada pela ESPM em parceria com o boletim semanal Jornalistas & Cia informa que 56% dos entrevistados declararam utilizar IA em determinados processos: na redação (53,9%), na apuração (27,2%) e na distribuição (20,1%). No entanto, mais de dois terços dos jornalistas (68,3%) confirmam o receio da popularização da ferramenta, sem uma regulamentação adequada.
Diante dessa nova realidade nas redações jornalísticas, Gustavo Klein, jornalista e editor executivo do Jornal da Orla, de Santos, afirma que “o jornalismo não vai poder nunca abrir mão do ser humano. É impossível confiar 100% nas informações que uma inteligência artificial te entrega, pelo menos no estágio atual. Isso aí, a gente sabe que vai evoluir e algumas coisas até podem ser automatizadas, mas na nossa experiência, quando você confia na informação que a IA te entrega, ela delira. Ela complementa as informações que não existiam, com coisas que ela inventou. Então, a checagem, o fator humano do jornalismo, vai ser sempre mais importante”.

O EDITOR E A MÁQUINA
Um estudo da Universidade de Stanford e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) esclarece que a aplicação do sistema de Inteligência Artificial Generativa em empresas aumenta em até 14% a produtividade dos trabalhadores.
Por um lado, menciona-se a necessidade de otimizar o tempo. Na comunicação, a IA é uma realidade influente, ainda mais com a automação de ferramentas de transcrição de áudio, que há um tempo levava horas, rebobinando a fita cassete ou voltando o áudio do início. Hoje, é feita em minutos, com a Otter, Trint, Google Recorder ou Adobe Premiere.
Na diagramação, domínio dedicado a estruturar visualmente textos, imagens e outros elementos gráficos, a IA mostra-se como uma aliada. Segundo o diagramador André Dias, também do Jornal da Orla, é comum, na busca de uma imagem na internet, a chance de encontrar um elemento em baixa resolução para o uso no impresso, e a evolução de softwares como esse facilita o trabalho e melhora a eficiência em situações de prazos.
De acordo com o professor da Ciência da Computação Francisco Zampirolli, da Universidade Federal do ABC (UFABC), uma imagem digital nada mais é do que uma matriz de números e, no caso de imagens coloridas, são três matrizes correspondentes às cores primárias: vermelho, verde e azul (RGB).
O especialista orienta: “Seja crítico quando estiver usando qualquer produto ou informação gerada pela IA, isso tanto para imagem quanto para texto. Hoje em dia, não se pode ter tanta confiança no que a ferramenta está oferecendo, pois os dados são processados de forma estatística. Nesse contexto, pode haver informação falsa e nunca se sabe quem está alimentando o banco de dados”.
ÉTICA E CREDIBILIDADE
Para Klein, o comprometimento da autenticidade editorial e da confiança do público com o jornalismo é um dos fatores centrais do debate sobre a ética e a credibilidade, ainda mais com o ofício de notícias falsas, visto que esse aumentou com o compartilhamento de deepfake, ação que envolve a manipulação de imagem e som. “Cabe uma educação do público, pois isso já acontece. A gente tem aí uma indústria de Fake News, bastante competente, e as pessoas embarcam. Vemos as mentiras mais absurdas, desde coisa de política até terraplanismo. Então, com isso, tem que vir uma educação do público para ter bom senso de identificar o que é notícia de verdade e o que é invenção. É uma coisa que hoje não é possível, que vai ficar cada vez mais difícil com o progresso da inteligência artificial.”
Ele ressalta, porém, que a discussão sobre a regulamentação da IA no jornalismo ainda esbarra em um fator incontornável, com a impossibilidade de controle total sobre o uso da ferramenta. Então, mesmo que empresas imponham restrições, ele lembra que qualquer profissional pode contornar limites com o próprio celular, por exemplo, tornando a responsabilidade individual, em que cada jornalista responde pelo conteúdo que assina e pelos erros que eventualmente cometer. “Quem quiser usar, vai usar”, resume.
Numa demonstração da preocupação do setor com o uso crescente da IA nas redações brasileiras, em 2025, a Associação Nacional dos Jornais (ANJ) reuniu mais de 100 veículos brasileiros, reforçando o compromisso ao aderir à campanha internacional Integridade das Notícias na Era da IA, que cobra dos desenvolvedores sistemas mais seguros, transparentes e alinhados ao interesse público.

O FUTURO DA PROFISSÃO
O jornalismo, que se adaptou à migração do impresso para o digital, enfrenta o impacto da IA Generativa, consolidada no mercado desde 2022. No entanto, o consenso permanece, de que a produção de notícias só existe plenamente quando mediada por profissionais humanos.
Para além da incorporação tecnológica, o desafio do futuro do jornalismo passa pela preservação da identidade autoral. O diretor executivo do Jornal da Orla reforça que o jornalismo impresso depende justamente da pluralidade de estilos para manter sua vitalidade. “Cada repórter escreve de um jeito, observa, e é essa diversidade que dá molho às páginas”, conta ele.
Um jornal inteiramente produzido por IA tende a soar uniforme, previsível e até mesmo monótono, projetando padrões característicos das máquinas. Por isso, Klein defende que o texto final deve sempre carregar a marca do jornalista, utilizando a ferramenta somente como um auxílio, garantindo a autenticidade e preservando a profissão para o futuro.
Ademais, Francisco Zampirolli considera que identificar textos produzidos por Inteligência Artificial continua sendo um desafio técnico. Ele lembra que já houve casos de conteúdos antigos serem confundidos com produções automatizadas, demonstrando os limites do olhar e discernimento. Por isso, o professor orienta que os profissionais utilizem a tecnologia como apoio, escrevendo o próprio rascunho e solicitando sugestões de melhora à máquina, mas nunca aceitem informações sem uma possível checagem.
